Gente que inspira: “Afinal, o que é ‘trabalho’?”

Tenho muito orgulho de trazer mais um texto de colaboradores aqui para a nossa nova coluna! É muito bom ver que a ideia de abrir esse espaço está rendendo frutos muito bons! O papo de hoje é sobre o que é trabalho para você!

A nossa autora é a Laura Noce que, assim como eu, passou um tempo considerável vivenciando a rotina corporativa e teve a chave virada após uma mudança que fez com que ela repensasse a sua rotina e seu propósito! Uma boa leitura, espero que gostem de ler e conhecer um pouco mais da história dela tanto quanto eu!


Afinal, o que é trabalho?

Rotina número 1: você acorda cedo de segunda a sexta. Arruma-se rapidamente, parte no trânsito rumo a um escritório no centro da cidade. Passa o dia entre e-mails, apresentações de Power Point, reuniões. Volta para casa no final do dia cansado, com a cabeça a mil.

Às vezes realizado, às vezes pensando que deveria procurar outra atividade e que aquele ciclo já terminou. O salário cai na conta todo final de mês e você acaba ponderando que o mundo corporativo é assim mesmo: cada dia é um dia, uns melhores, outros nem tanto.

Entre a culpa da ausência em casa e o brilho nos olhos quando vê um projeto se concretizando, você se prepara para o dia seguinte.

Rotina número 2: você acorda cedo de segunda a sexta. Corre para se arrumar antes que os filhos despertem. Quando eles acordam, o ideal é que você já tenha preparado o café da manhã e as lancheiras para a escola.

Mal deixa as crianças e já parte para o supermercado, feira, e todas aquelas necessidades sem fim que uma casa demanda. Por mais que você tenha ajuda de uma faxineira ou funcionária, parece que tão logo uma atividade doméstica acaba, já está na hora de começar tudo de novo.

A noite você só quer descanso, fica pensando se vale mesmo a pena se dedicar à família e não ganhar nenhum dinheiro por isso. Por vezes imagina se isso será sustentável a longo prazo, mas quando recebe um abraço carinhoso de boa noite decide que é melhor manter as coisas assim.

Definições

Se buscamos definições no dicionário, ambas as rotinas podem se encaixar na definição de “trabalho”, que, em linhas gerais, é considerado qualquer ocupação manual ou intelectual.

Mas é fato que as discussões acerca do trabalho não são tão claras assim. Mães que abrem mão de uma carreira corporativa e executivos estressados ainda dividem espaço nesse dilema constante com jovens em busca de novos modelos de trabalho e pessoas que querem uma vida com mais propósito.

Dentre tantos questionamentos conceituais, eu te desafio: o que é trabalho para você? O que VOCÊ busca quando pensa nisso?

Por mais fácil que possa parecer responder a esta pergunta, te convido a uma segunda reflexão antes de chegar à conclusão daquilo o que é trabalho para você.

Vou abrir um parêntese aqui e te contar uma breve história, a minha história.

Minha história

Por mais de quinze anos trabalhei no mundo corporativo de forma ininterrupta. Mesmo durante minhas duas licenças-maternidade não me desconectei totalmente das atividades nas empresas por onde passei.

Desde a faculdade já sabia que queria trabalhar com foco no consumidor e marketing parecia a área certa. Estudei, me esforcei e tive oportunidade de trabalhar com grandes marcas e produtos.

Quanto mais o tempo passava, mais longe eu ia e mais difícil era parar para pensar em voltar. Parecia quase um sacrilégio ter me dedicado tanto para chegar até ali e, eventualmente, questionar se estava certa.

Fui crescendo e acumulando uma culpa aqui dentro que teimava em aparecer em pequenas crises nervosas, pequenas doenças, pequenas insônias.

Ia usando de eufemismos para diminuir um estresse que era alimentado pela minha rotina. Até que um dia, depois de cinco anos entregando grandes resultados à frente de uma marca amada globalmente, fui demitida.

Vários são os motivos que levam uma pessoa à demissão – de baixa performance a descompasso com o chefe. Não vem ao caso entrar em nos detalhes da minha experiência, mas uma coisa é fato: a empresa decidiu por mim algo que eu deveria ter tomado as rédeas.

Parece coisa de quem cospe no prato que comeu, mas afirmo que não. Dia após dia eu tentava me convencer de que eu não tinha o direito de estar infeliz trabalhando numa empresa tão bacana, com um cargo tão invejado, numa marca tão amada, um time tão engajado e um salário tão bom.

Soma-se a isso glamour, status e diversão. “Como era possível estar infeliz?”, você deve estar se perguntando. Eu não tinha claro para mim a resposta da pergunta “o que é trabalho para você” ou qual de fato era o trabalho que eu buscava. Voltamos então à pergunta lá de cima.

O que é trabalho para você?

Pouco antes de sair deste último emprego, tive uma conversa com uma pessoa que trabalhava comigo. Não éramos amigos, não nos dávamos sempre bem, mas admirava sua competência.

Sentamos um dia juntos justamente para divagar sobre planos de carreira. Fiquei surpresa com minha própria fala quando verbalizei que não tinha certeza do que gostaria de estar fazendo dentro da empresa naquele momento.

Mudar de área? Mudar de país? Nada estava claro exceto o fato que meu ciclo na atividade que exercia – marketing de produtos – já parecia exaurido.

Ele era um cara com mais experiência e idade que eu. Não é brasileiro e já tinha morado numa meia dúzia de países. Embora marqueteiro de convicção, nos últimos dez anos estava dedicado a uma carreira generalista responsável por operações da empresa mundo afora.

Ou seja, era um cara focado em gestão, não em execução. Quando se chega à gerência de uma operação, você não precisa saber tudo de finanças ou RH, mas, sim, dar suporte a quem é especialista em cada tema.

Quando nosso trabalho passa a ser lidar com pessoas o tempo todo, o nível de complexidade e equilíbrio emocional pode ser extremo. Por isso, e sabendo desta complexidade que também fazia parte da minha rotina, fiquei surpresa com a simplicidade da técnica que ele usa para definir seus próximos passos de carreira.

“Faça uma lista daquilo que você busca, Laura. Mas uma lista real, honesta, e que contemple tudo, desde as coisas mais básicas até as mais estratégicas”.

Pode parecer uma coisa boba, óbvia, sem novidades. A gente faz lista de propósitos de ano novo, de supermercado, lista de lugares que queremos conhecer. A princípio não levei muito a sério, mas tão logo fui demitida e precisei me confrontar com novas oportunidades, resolvi tentar fazer a tal lista.

E acredite, pode ser mais difícil do que você imagina

Durante minha vida corporativa nunca me imaginei empreendendo, mas me via como uma escritora nas horas vagas. Ter sido demitida de repente me abriu um apetite enorme pela autonomia, pela possibilidade de ser dona do meu tempo.

Comecei a fazer várias conexões e tirar planos do papel. Vi que com motivação, esforço e perseverança, podemos ir muito longe. Mas logo as entrevistas e propostas para voltar ao mundo das grandes empresas começaram a bater na porta.

E aí? O que escolher? Continuar focada nos meus planos pessoais ou voltar para a “segurança” de um salário no final do mês? Voltava à pergunta de cima: “o que é trabalho para você?”.

4 dicas para descobrir o que é trabalho para você

Sentei e me dediquei à minha lista. Sugiro que você faça o mesmo, seja para começar uma etapa nova, seja para evoluir naquilo que já faz hoje. E se ainda não sabe por onde começar, seguem algumas dicas para descobrir o que é trabalho para você. Use uma, todas, ou nenhuma, mas tente. Vale a pena.

#1 – Não sente uma única vez e acredite que sua lista de prioridades estará completa. Ela é um trabalho em andamento: escreva, reescreva, leia no dia seguinte e siga evoluindo, sem dilema e sem se achar volúvel.

#2 – Tudo importa. Uma boa lista de coisas que te motivam no seu trabalho não deve ter apenas conceitos altamente relevantes como “trabalho com propósito”, “ajudar aos outros”, “time com alta performance”. Coisas mais práticas como “trabalhar perto de casa”, “flexibilidade de horário” ou “chefe inspirador” também contam.

#3 – Cada um é cada um. Comece se respeitando! Se seu amigo largou tudo para trabalhos humanitários mundo afora e isso o motiva, ótimo! Mas você não precisa se sentir mal porque sua lista de motivações passa por “dinheiro”, “ficar com meus filhos” ou “ter um bom plano de saúde”. Fique atento para não se restringir ao conformismo, mas também não tente ser apenas aquilo que esperem que você seja.

#4 – Coloque uma ordem de prioridade. Ninguém tem tudo. Por exemplo, a minha lista passa por trabalhar em empresas de bens de consumo, ter foco no consumidor, empresa idônea, produtos em que acredito, dinheiro, autonomia, acesso à inovação e novas tecnologias, bom ambiente de trabalho, estar perto de casa, poder dizer não e chefe inspirador. Mas se coloco em ordem, consigo limitar minha expectativa, reduzindo-a e sendo mais feliz.

A importância de aprender a dizer “não”

Pois bem, como efeito prático, no mínimo você vai rir de algumas coisas e no máximo vai conseguir ter mais clareza de para onde está indo.

Funcionou comigo. Depois de fazer a minha lista decidi que seguir escrevendo e ter meu próprio negócio era fundamental. Ainda que queira, sim, estar de novo inserida no corporativismo, mas com uma perspectiva muito mais autônoma, trabalhando com um produto em que acredito, ganhando dinheiro, tendo um chefe inspirador e estando próxima de casa.

Com isso em mente, foi muito menos sofrido dizer “não” para aquelas oportunidades que toda minha família achava que eu deveria aceitar e seguir em frente naquela que me parecia a mais certa. Boa sorte 😉


Foto-Laura-Bio-Afinal, o que é trabalho? - TGI TodayLAURA NOCE, 36 anos, é esposa, mãe de 2, executiva, obcecada por praia, moda e esportes. Marqueteira, já trabalhou com grandes marcas como Sadia, Perdigão, Dona Benta e Havaianas. Hoje é diretora de marketing de uma empresa de alimentos saudáveis. Quer continuar sua empreitada em busca de entender e entregar o melhor para o consumidor. Aspirante a escritora desde sempre, mantém o site Palavra de Dois e trabalha arduamente na construção do seu primeiro livro.

 

*O conteúdo publicado acima é de inteira responsabilidade de seu autor. As opiniões nele emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do Thank God It’s Today.

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Lígia Costa é empresária e especialista em planejamento.

LIGIA COSTA

Sou formada em Marketing pela Universidade Mackenzie, pós-graduada em Gestão Organizacional e em Relações Públicas pela Universidade de São Paulo (USP).

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